quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Bonaparte



Les Invalides, Paris

A escultura acima é uma das várias alegorias ao código napoleônico que velam o corpo do sujeito de 1,67 m que durante o século XIX destronou praticamente todas as monarquias relevantes do continente Europeu e expandiu, ainda que sob a chaga da Guerra, os princípios da revolucao de 1789 para além das fronteiras francesas e mudou para sempre a história da Europa e do Mundo.
Napoleao entrou em Madri acompanhado de 305.000 soldados. Algo como meia Stuttgart marchando de uniforme. Outros milhares foram enviados para batalhas célebres como Austerlitz e Jena; muitos outros pereceram em derrotas como Trafalgar e Waterloo. Tudo nessa época soa como gigantesco, fáustico, além da imaginacao. Contra Napoleao, um outro gigante também lutava. Talvez deficitário de uma figura emblemática para inflar os brios dos seus soldados e da sua populacao, mas em todo caso uma verdadeira máquina de guerra, composta por 880 navios bem organizados e munidos, com a possibilidade constante de repor as perdas materiais através da sua impressionante atividade industrial. Num tempo em que Bonaparte arrasava o continente a Gra-Bretanha o oceano, nao havia mais espaco para nacoes carolas e supersticiosas como Portugal. Ao contrário dos seus pares soberanos (vários deles seus parentes), que acabaram bem ou mal descoroados, D. Joao fez a escolha mais acertada: reconhecer sua pequenez, deixar que o palco fosse ocupado pelos atores principais e retirar-se para longe, bem longe, de tudo isso. Bom para si, que nao perdeu o cetro. Ruim para o povo portugues, que viu a si próprio ser arruinado nos anos de Guerra Peninsular, na maior onda de miséria e fome já vivenciada em território luso.

Napoelao pode ser entendido como um dos fundadores da Modernidade, nao necessariamente naquilo que ela possui de melhor. Antes dele, o poder dos soberanos se justificava de forma muito mais simples e contentadora. Havia uma fronteira, um vácuo metafísico entre soberano e povo - simplesmente nao compartilhavam da mesma substância, da mesma natureza. Em algum ponto obscuro do tempo (ou fora dele, se considerarmos as doutrinas em que o poder real emanava de Deus, e portanto, de uma esfera "fora" do tempo, alocada na eternidade), foi conferida à uma sorte de homens o direito de comandar os outros e era conveniente que se pensasse assim. Com a equalizacao de todos os sujeitos, através do humanismo iluminista, ser um soberano absoluto tornou-se muito complicado. Alguns poderiam até mesmo pensar que isto seria impossível. Mas Napoleao provou que nao: é possível ser imperador e cantar a marselhesa ao mesmo tempo. Como fazê-lo? Sendo simplesmente Bonaparte - alguém cujo mito pessoal conviveu com o próprio ser humano de carne e osso: fazer-se imperador, ao invés de receber o título de nascenca; tornar-se com isso um emblema do homem que se auto-constrói, da infalibilidade do projeto pessoal, do criador e inventor da própria existência, que nao mede esforcos para realizar a construcao daquilo que se é.
Basta observar a imagem acima exposta. Nela, o imperador encontra-se no centro, impassível, quase um romano, mais forte e mais virilizado do que provavelmente fora. À sua direita, um anciao (filósofo?) lhe oferece o código de Justiniano. Sua mao recolhe desta lei antiga, porém sábia, apenas o mínimo necessário para a sacramentacao do outro código, à sua esquerda, que, como diz a inscricao abaixo "foi mais benfazejo à Franca que todo o amontoado de leis que o precederam".
A lei de Napoleao é benfazeja porque é "simples". Por simples, se entende o fato de que é compreensível a todos. Por "compreensível a todos" se entende o fato de que sob Napoleao a alfabetizacao se generalizou. Por "generalizacao da alfabetizacao" se entende o fato de todos poderem ler a letra da lei.
A alegoria prossegue à esquerda com um livro velho e desforme, composto por todas as demais leis, oriundas do costume, sendo rasgado violentamente por uma figura feminina. O passado nao mais importa. Curiosamente, o único passado relevante é o dos romanos, de onde provém a lei justiniana. A lei agora é limpa, clara, única e soberana. É impossível nao reconhecer sua validade. E sua validade está na ponta do indicador de Bonaparte, ponta esta que indica a quem se dirige seu valor: "pour tous".

sábado, 13 de dezembro de 2008

"Freiheit stirbt mit Sicherheit" ?



Stuttgart, 6.12

Um dos pilares da democracia alema é a chamada Versammlungsgesetz, lei que garante e regula o direito de reuniao pública.
Recentemente foi proposto em vários estados (Bundesländer) o recrudescimento desta lei, o que implicaria em maiores restricoes para manifestacoes públicas, protestos, demonstracoes civis.
O argumento elencado pelos defensores do recrudescimento da Versammlungsgesetz é, como em muitos casos que vem se repetindo pelo mundo, a "manutencao da seguranca", seja lá o que isso significa.
Pela "seguranca", nestes últimos anos, vários Estados ao redor do globo arrogaram-se o direito de vigiar seus cidadaos através da quebra de sigilos telefonico, postal, bancário e virtual. Este é um movimento crescente e cujos efeitos também ecoam no Brasil, onde um número expressivo de pessoas tiveram seus sigilos telefonicos quebrados através de processos conduzidos nas esferas do Estado. Nem precisa se dizer nada sobre o semi-estado de excecao implantado nos Estados Unidos após a promulgacao do Ato Patriótico e os atentados de 11 de setembro, que também serviram para legitimar barbarismos como Guantánamo e o derramamento de sangue no Iraque.

Por motivos de "seguranca", os Estados tem se tornado perigosamente grandes. Os muito liberais tem medo de um Estado que seja grande em termos economicos. Seguem afirmando que liberdade economica implicaria quase que mecanicamente em liberdade civil e política. O que explicaria entao, que no momento historico em que mais liberal se foi na economia, com o capital especulativo fazendo o que fez, o Estado tenha cometido tantos atos de excecao da liberdade - e ainda esteja, como demonstra o recrudescimento da Versammlungsgesetz na Alemanha, disposto a ampliar sua esfera de controle sobre os cidadaos?
Das duas solucoes uma: ou bem liberalismo economico extremo nao possui relacao essencial e necessaria com liberdade política (é dizer, mercado e estado policial podem conviver muito bem e, em última medida, serem mui amigos), ou bem o estado recrudescido é garantia para a liberdade economica extrema - nao na esfera da economia, evidente, mas na esfera da sociedade, onde sem dúvida nenhuma, quem detém o monopólio da violencia detem absurdamente muita coisa.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008




"- Eu dou minha autorização ao Partido Socialista Unido da Venezuela, ao povo venezuelano, para que iniciem um debate e as ações para conseguir uma emenda constitucional e a reeleição do Presidente da República - disse Chávez no ato transmitido em cadeia nacional de rádio e televisão. - Estou certo de que agora vamos conseguir, vamos mostrar quem manda na Venezuela - acrescentou, arrancando aplausos da platéia."

Hugo Chávez, ontem, em Caracas

Tem gente que precisa aprender a lidar com a finitude. Chavez é uma dessas pessoas.
Parece ser inconcebível para ele que o poder nao possa se confundir com a sua própria pessoa e vice-versa. Um pouco de John Rawls e Levinas poderiam ser bons para sua cabecinha, por mais que sejam leituras um tanto "aburridas".

quarta-feira, 26 de novembro de 2008




Holzmarkt, Tübingen

segunda-feira, 17 de novembro de 2008




Praca do Comércio, Lisboa


A sensacao de ter alguém sempre lá, em segundo plano.
Mas sempre interferindo no primeiro.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Madri




Calle de Alcalá, Madrid


Madri é uma cidade louca. É a metáfora perfeita da cidade-organismo, de um ser vivo composto de anatomia e fisiologia finamente acabadas, nas quais as avenidas sao verdadeiras artérias e as pessoas sao como monadas (aquelas do "conselheiro áulico Leibniz", como disse Borges) que singelamente refletem a grandiosidade do todo - seja o sujeito mirradinho tocando realejo na Puerta del Sol, o executivo apressado na Calle Ortega y Gasset, a colombiana na estacao Diego de León ou criancinha que desfralda a bandeira para o rei no dia da Hispanidade. Madri é uma cidade de muitos tipos humanos, tantos que a gente até cansa de enumerá-los. O que o velhinho que acompanha os touros na arena de Ventas desde 1958 - anotando tudo o que acontece num caderninho de couro preto - tem a ver com a drag queen pintosa de Chueca? Talvez o mesmo que a atendente nicaragüenha do Mc Donalds tem com as idosas senhoras surpreendentemente ativas à partir das 23h: absolutamente nada e potencialmente tudo.
Em algum lugar se le que o que caracteriza a vida metropolitana é a proximidade concreta de muitas pessoas que vivem em mundos simbólicos completamente diferentes e até mesmo equidistantes. É na metrópole que os encontros mais inusitados sao potencias prestes a serem realizadas a qualquer momento, basta que ruídos interferiram na fina membrana que separa os distintos universos que se chocam dia a dia no metro, na calcada, no café, no parque. Isso é um bom indício do que seja Madri e do que se pode tirar dela. Como poucos lugares no mundo, tudo o que de mais humano existe é catalizado e exponenciado na densamente povoada capital da Espanha, seja algo bom, algo ruim ou qualquer outra coisa perdida no amplo espaco existente entre estas duas extremidades; espaco este, quem sabe, correspondente ao território de Madri, sem tirar nem por: bonito e alegre da Porta de Atocha até as vizinhancas de Alcalá de Henares.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Belleville




Metropolitain de Paris, Belleville


Belleville é um bairro a oeste de Paris, pelo 19. ou 20. arrondissement. Atualmente serve de moradia e local de trabalho para um significativo número de imigrantes, provenientes de várias partes do mundo. Restaurantes chineses, coreanos e vietnamitas proliferam em cada esquina. De um lado da rua ve-se um turco cuidando da sua loja de tecidos; do outro, um grego vendendo crepes. Anúncios de brasileiros que dao aula de capoeira, um russo ou um búlgaro de tracos neandertalescos pedindo esmola.
Belleville é onde Paris comeca a nao ser mais o seu próprio estereótipo e fica colorida de um jeito muito notável, como o lenco dessa mulher. Perto dali também fica o famoso Père Lachaise, onde Pierre Bourdieu, Heloisa e Abelardo, Piaf, Auguste Comte e Jim Morrisson aproveitam o sono dos justos.