Alguém bastante pessimista (ou pré-historicamente existencialista) deve ter escrito o Eclesiastes, um dos sete livros sapienciais do Antigo Testamento. A primeira parte dele chama-se "As ilusões da vida humana" e contém passagens memoráveis, dignas de comparação, quem sabe, somente com as Confissões de Agostinho ou algo do gênero. É possível que se pergunte o que, afinal de contas, estarei querendo eu ao falar de Bíblia num momento em que arcebispos excomungam médicos e em que o Papa, sabe se lá porque motivos, reabilita gente da pior escória conservadora para dentro da igreja. Minha própria capacidade de exegese bíblica poderia, igualmente, ser colocada em questão. O que sei eu sobre tudo isso? Admito, nada. No entanto, enquanto documento filosófico, o Eclesiastes torna-se matéria muito boa para o pensamento - eu poderia até ousar dizer que seja uma das melhores que tenho entrado em contato ultimamente. O que me fez abrir a Bíblia e procurar algo para ler, confesso, foi um misto de tédio e interesse pela tradição cristã ressucitado após a leitura de As confissões de Agostinho do professor Johannes Brachtendorf, cujo seminário tive a oportunidade de acompanhar em Tübingen. Do conteúdo do livro, todavia, não adveio nenhuma referência específica ao Eclesiastes ou qualquer outra passagem do Velho ou do Novo Testamento, mas sim um interesse geral pelo livro que há bons 2000 anos tem influenciado o mundo de formas tão distintas que vão desde a redenção pessoal até a guerra mutiladora de corpos e comunidades.
O que me fez procurar o Eclesiastes foi uma vaga lembrança da passagem bíblica que prefacia O tempo e o vento, do Érico Veríssimo:
"Uma geração passa, outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma" (Ecl 1,4).
Por si só interessante, ela ganha um sentido ainda muito maior e significativo se lida em relação com os versículos que a sucedem e precedem. Eles configuram, em conjunto, a primeira das grandes reflexões do Eclesiastes, ou "a precariedade da vida humana":
"Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?
Uma geração passa, a outra lhe sucede, enquanto a terra permanece sempre a mesma.
O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar a seu lugar, donde novamente torna a nascer.
Dirigindo-se para o sul e voltando para o norte,
ora para cá, pra para lá vai soprando o vento,
para retomar novamente seu curso.
Todos os rios correm para o mar, e contudo o mar não transborda;
para lá onde os rios vão,
para lá tornam a ir.
Tudo é penoso, difícil de homem explicar.
A vista não se cansa de ver, nem o ouvido se farta de ouvir.
O que foi, será;
o que aconteceu, acontecerá:
nada já de novo debaixo do sol."
O que se afigura aqui? Sem dúvida nenhuma, uma idéia bastante específica do que é ser homem, ser alguém "debaixo do sol". Mas o que está debaixo do sol?
É interessante notar quantas vezes essa expressão aparece no Eclesiastes. O seu autor - o livro é um tanto testemunhal - diz que viu muitas coisas debaixo do sol: injustiça, iniqüidade, falsos sábios, sofrimento e privação. "Debaixo do sol" também é a terra que permanece a mesma enquanto as gerações sucedem uma a outra, é o lugar onde um dia aparecemos e no outro deixaremos de existir, nossa casa e único habitat possível - ou haveria, para o homem, algum lugar que não seja debaixo do sol?
E o que se faz debaixo do sol?
O primeiro versículo é muito claro: trabalha-se e afadiga-se. O Eclesiastes então pergunta, atonitamente, o que retiramos desse trabalhar e se afadigar. Ganhamos alguma coisa além de uma terra que nos é indiferente e que engole as gerações, uma atrás da outra, como se fossem poeira que se dissipa no vento ou uma palavra, que para existir, deve deixar cada uma de suas sílabas ser pronunciada e, ao fim, não existir mais? Como fruir os frutos do trabalho numa condição finita, e limitada, debaixo do sol?
"E detestei todo o trabalho com que me afadiguei debaixo do sol, pois tenho que deixar tudo para um sucessor. E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Ele herdará o que me custou tanto esforço e habilidade debaixo do sol. Também isso é ilusão." (Ecl 2,18-19).
O drama do homem incapaz de fruir do seu trabalho não é prerrogativa apenas do pai que deixa tudo que tem ao filho de pretensões duvidosas, mas de toda a espécie humana que labora debaixo do sol. Estaria aqui a raiz da utopia marxista de uma redenção através do trabalho que restitui a quem trabalha o esforço dos seus braços? Há sempre um outro que usufrui daquilo que eu produzi. Produção e fruição nunca são coetâneas:
"Todo o trabalho do homem é para sua boca, e contudo seu apetite nunca está satisfeito" (Ecl 6, 7).
Contra aquele que trabalha existe o tempo, indiferente ao seu sofrimento (O sol se levanta, o sol se deita, apressando-se a voltar a seu lugar, donde novamente torna a nascer.) e incessantemente duradouro: Todos os rios correm para o mar, e contudo o mar não transborda;
para lá onde os rios vão,
para lá tornam a ir.
Todavia, o tempo não é por necessidade um inimigo do homem; basta empregá-lo com sabedoria e compreender o que podemos tirar dele, no momento oportuno, de acordo com o que somos e o que fizemos debaixo do sol. Daí surge uma das passagens mais bonitas de todo Eclesiastes e quem sabe de toda a Bíblia (pretensão de que não conhece nem cinco por cento dela):
"Tempo de nascer.
e tempo de morrer;
tempo de plantar,
e tempo de colher a planta.
Tempo de matar,
e tempo de sarar;
tempo de destruir,
e tempo de construir.
Tempo de chorar,
e tempo de rir;
tempo de gemer,
e tempo de dançar.
Tempo de atirar pedras,
e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar,
e tempo de se separar.
Tempo de buscar,
e tempo de perder;
tempo de guardar,
e tempo de jogar fora.
Tempo de rasgar,
e tempo de costurar:
tempo de calar,
e tempo de falar.
Tempo de amar,
e tempo de odiar;
tempo de guerra,
e tempo de paz." (Ecl 3, 2-8).
Que controle temos sobre tudo isso? Quando reconhecemos quando é tempo de calar ou tempo de falar? Aí está, creio eu, a diferença proposta pelo Eclesiastes entre o sábio e o insensato. Ela aparece repetidas vezes, mas não é trazida à luz senão através de formulações espirituosas, quase provérbios populares. Tanto o sábio quanto o insensato são criaturas (inelutável concepção judaica) irremediavelmente debaixo do sol. O que lhes espera no final, tenham eles as diferenças que tenham, é a mesma coisa: a terra que engole gerações. A pergunta que se faz é, portanto, o que fazer, "debaixo do sol" e como tornar isso algo suportável, uma vez que o trabalho, como todo o resto, não passa de uma grande ilusão. O sábio entende e aproveita o tempo, não o trabalho. Do trabalho, ele usa apenas aquilo que no tempo é aproveitável. E é feliz nesse seu aproveitar:
"Em tempo de felicidade sê feliz!
Em tempo de infelicidade, pondera." (Ecl 7,14);
O sábio é aquele que escuta e retribui o chamado do tempo. Nada mais que isso e simples assim. O tempo é a dimensão soberana que, submetida à condição de mero compasso do trabalho, perde aquilo que tem de essencial e originário e vulgariza-se, quantifica-se, mortificando os homens e dispondo-os como coisas ao trabalho, enquanto é o trabalho que deveria dispor-lhe coisas.
Em relação ao trabalho, o Eclesiastes é enfático em ressaltar sua capacidade de produzir coisas. Coisas que se destinam à fruição e ao consumo, pois "todo trabalho do homem é para sua boca". Aqui fulgura certo materialismo interessante de ser notado no mundo veterotestamental. Mas o trabalho não pode ser um fim em si mesmo. Ele deve apontar para algo além dele, sob pena de afundar-se no caráter nefasto e aprisionante do tempo, que oprime o homem e o faz lembrar, continuamente, sua condição finita e insuficiente.
Meu horizonte de interpretação é precário e raso. Meu conhecimento de exegese bíblica, repito, equivale a nada. Não poderia tomar essas reflexões como terminadas e muito menos definitivas sobre aquilo que o Eclesiastes tem a dizer. O fato é que ele incita a pensar, o que por si só já é um excelente começo. Um começo do que fazer, afinal de contas, debaixo do sol.
domingo, 8 de março de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Marktplatz, Tübingen
Já chegando o final do inverno durante a Idade Média, as pessoas costumavam estar aborrecidas, cansadas e muitas vezes delirantes de tanto frio. Haviam aqueles que enxergavam bruxas e demônios. Principalmente uma mulher de aparência nefasta, cujo rosto era bicolor e cuja tarefa metafísica nada mais era que espalhar o inverno sobre toda a superfície da terra.
A resposta humana aos demônios, como de praxe, era vestir a carapuca deles e rir de sua triste condicao de criaturas infernais. Assumir o papel do inimigo sempre foi uma boa forma de vencê-lo, exorcizá-lo. Daí nasceu, pelo menos entre as tribos do que hoje é o sul da Alemanha, o carnaval.
Com a anuência do cristianismo (de outro modo, perderiam fiéis cordeiros), a festa perdurou durante séculos, e até hoje os suábios vestem-se com a roupa das suas bruxas e demônios para mandar o inverno embora; se nao conscientemente, pelo menos replicando quase uma eternidade depois aquilo que seus antepassados uma vez fizeram.
A diferenca é que hoje, creio eu, ninguém esteja delirando de frio, e a funcao expiatória da festa, outrora imediata, necessária e eficaz, transformou-se em mais um folguedo popular a figurar em catálogos etnográficos.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Crise
Outubro, Madri
Uma cadeia de causalidades levada às suas últimas conseqüências conduz, como é bem sabido, à origem de todas as coisas: o que acaba nao explicando nada e nao responsabilizando ninguém.
Outra boa forma de desresponsabilizacao é conferir às "conjunturas" a culpa de tudo. Em termos macrosociológicos e macroeconômicos isso volta e meia acontece, até porque, inegavelmente, grandes estruturas possuem um relativo grau de autonomia perante os atores que a compoem. Todavia, sempre há espaco para aquilo que se chama princípio da alternatividade nas acoes humanas; é dizer, frente a uma decisao importante, poder ter escolhido fazer outra coisa. As estruturas funcionam autonomamente e muitas vezes alienadas das vontades individuais, mas a arquitetura delas - e principalmente a da estrutura econômica - está baseada em alguns pontos nodais que dependem da escolha humana. Pesem todas as pressoes conjunturais, fazer trade off ainda é uma faculdade do ser humano. E é nisso, conseqüentemente, que reside a responsabilidade.
Foi pensando desta forma que o Guardian da Inglaterra sugeriu a seguinte lista de "culpados" pela crise atual:
A quem culpar (segundo o The Guardian)
1) Alan Greenspan, chairman do Fed, banco central dos EUA, entre 1987 e 2006
2) Mervyn King, presidente do Bank of England (banco central da Inglaterra)
3) Bill Clinton, ex-presidente dos EUA
4) Gordon Brown, primeiro-ministro da Grã-Bretanha
5) George W Bush, ex-presidente dos EUA
6) Phil Gramm, ex-senador do Texas
7) Abby Cohen, chefe estrategista do banco Goldman Sachs
8) Kathleen Corbet, ex-presidente do Standard & Poor’s
9) "Hank" Greenberg, chefão do grupo de seguros AIG
10) Andy Hornby, ex-chefe do HBOS
11) Sir Fred Goodwin, ex-chefe do banco britânico RBS
12) Steve Crawshaw, ex-chefe do B&B
13) Adam Applegarth, ex-chefe da Northern Rock
14) Dick Fuld, chefe executivo do banco Lehman Brothers
15) Ralph Cioffi e Matthew Tannin
16) Lewis Ranieri, financista
17) Joseph Cassasno, da AIG Financial Products
18) Chuck Prince, ex-chefe do grupo bancário Citi
19) Angelo Mozilo, chefe da Countrywide Financial
20) Stan O’Neal, ex-chefe do Merrill Lynch
21) Jimmy Cayne, ex-chefe da Bear Stearns
22) Christopher Dodd, chefe do comitê de bancos do Senado dos EUA
23) Geir Haarde, primeiro-ministro da Islândia
24) John Tiner, ex-executivo da FSA (autoridade de serviços financeiros dos EUA)
25) O consumidor americano
Na minha singela opiniao, este último - que também é o mais genérico de todos - deveria ser o primeiro.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Mind the gap
Underground, Londres
À fim de que ninguém perca seu pé no vao existente entre a plataforma e o trem, uma voz no Metrô de Londres fica constantemente repetindo o aviso "Mind the Gap". Esta frase já está tao incorporada à vida do londrino que passou a sinonimizar o próprio Underground da capital britânica. É um aviso curto e suscinto - quase uma questao de estímulo-resposta.
Do outro lado do Canal da Mancha, a mesma advertência poderia figurar num poema: "Attencion a la marche en descendant du train". A pessoa já poderia ter perdido o pé antes de escutar tudo até o final.
Cruzando o Reno, lê-se na Alemanha "Ausstiegvorsicht": informacao sintética e condensada, mas agressiva para os olhos que a lêem e aos ouvidos que a escutam. Além de totalmente incompreensível para quem nao sabe nada (ou muito pouco) de alemao.
Em Madri, uma voz feminina furiosa incita os passageiros a terem "cuidado para no meteren el pié entre coche y andén" nas "estaciones en curva". Aqui se obedece mais pelo tom enérgico do aviso do que pelo medo da amputacao.
É por estes e outros motivos que, de todas as línguas indo-européias, o inglês seja aquela mais próxima de um código do que de um idioma. Se um robô tivesse língua, essa língua seria o inglês. O mesmo vale pra um computador que falasse ou escrevesse sozinho.
Nao é a toa que uma filosofia tao lógica quanto a analítica tenha surgido e vigore por lá. Pena que ler Russell nao seja tao legal quanto passear em Londres.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Outono / Inverno
Platanenallee, Neckarinsel, Tübingen
Até agora minha estacao favorita na Alemanha é o outono. O inverno, a princípio, parece muito bonito, mas logo em seguida a vista comeca a cansar de tanto branco; o corpo cansar de tanto frio. É o inverno mais gelado dos últimos anos no velho mundo. Semana passada o termômetro ficou patinando na dezena negativa e a Rússia assustando o resto da Europa com a ameaca de cortar o nosso gás. Afora que a neve, apesar de bonita, origina uma série de incômodos. Houve um dia em que os ônibus simplesmente nao conseguiram subir até a parte alta da cidade. Quando ela se acumula nas calcadas e as pessoas pisam, surge uma massa informe e escura de sujeira e gelo que nossos tênis e calcados insistem em convidar para dentro de casa. O inverno também é pródigo nas poucas horas e mínima intensidade que o sol brilha quando resolve dar minimamente as caras. Anoitece pelas quatro da tarde e, quando é meio dia, nao se distancia quase nem dois palmos do horizonte. É uma esfera amarelada e tímida, retraída como toda a gente fica com essa temperatura. Acaba sendo bom para ficar em casa ou rolar montanha abaixo em trenozinhos de madeira ou plástico, que sao aparentemente a única diversao em espaco público - terminados os mercados de natal e construídos todos os bonecos de neve - que os alemaes se propoem a fazer com gosto nessa época.
O outono é que é o bom. Por mim, eu viveria num outono alemao eterno.
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